sexta-feira, 19 de julho de 2013

Pessoas vão embora de todas as formas: vão embora da nossa vida, do nosso coração, do nosso abraço, da nossa amizade, da nossa admiração, do nosso país. E, muitas a quem dedicamos um profundo amor, morrem. E continuam imortais dentro da gente. A vida segue: doendo, rasgando, enchendo de saudade… Depois nos dá aceitação, ameniza a falta trazendo apenas a lembrança que não machuca mais: uma frase engraçada, uma filosofia de vida, um jeito tão característico, aquela peculiaridade da pessoa.
Mas pessoas vão embora. As coisas acabam. Relações se esvaem, paixonites escorrem pelo ralo, adeuses começam a fazer sentido. E se a gente sente com estas idas e também vindas, é porque estamos vivos.
Cuidemos deste agora. Muitos já se foram para nos ensinar que a vida é só um bocado de momento que pode durar cem anos ou cinco minutos. E não importa quanto tempo você teve para amar alguém, mas o amor que você investiu durante aquele tempo.Segundos podem ser eternidades… ou não. Depende da ocasião.

Marla de Queiroz
Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.

Hilda Hilst, em “Testamento lírico”.


Embebedei-me de novidade. Ventilei a alma e arejei o peito. Saturei meus olhos de novas paisagens. Sufoquei meus pulmões de novos ares. E, hoje, vivo a ressaca daquela verdade que só a distância nos revela. Aquela que o cotidiano – ao turvar-te os olhos – te impede de enxergar.
Me descobri como uma folha que se desprendeu do alto de uma copa. E deixou todas as raízes no tronco daquela imponente, porém imutável, árvore. Descobri que não nasci pra permanecer no mesmo lugar a vida toda. A estabilidade nunca foi minha alma gêmea.
A busca por ela ficou para trás.
Descobri minha alma cambiante. Descobri que não sei ficar. Que não quero permanecer. Que não me contento com o que se repete. Que repudio o que bate à porta sempre à mesma hora. Que preciso de mais. Que sou mais. Que mereço mais e, por isso, pago com solidão.